Faz hoje 27 anos que Famalicão foi atingido por uma das tempestades mais violentas de que há memória no concelho. Na tarde de 1 de setembro de 1999, uma tromba de água, acompanhada por granizo e ventos muito fortes, deixou um rasto de destruição em apenas cerca de vinte minutos.

O temporal surgiu ao final de uma tarde marcada pelo calor. Por volta das 17h00, o cenário mudou rapidamente e a zona baixa da cidade ficou alagada. A força da chuva e do vento arrastou tendas e artigos da feira semanal, enquanto que a Feira de Artesanato, que se preparava para abrir portas, ficou praticamente destruída.
As memórias de quem viveu aquele momento continuam bem presentes. Élia Ribeiro recorda o impacto que teve ao chegar à estação, depois de um dia de trabalho em Braga: “Ao sair do comboio fiquei tão espantada com a altura do granizo (…) que toda a gente correu para a porta”. Já na rua, conta, as árvores pareciam ter sido arrancadas “furiosamente”.
Elisa Sá também estava na cidade e descreve a mudança repentina do tempo: “Estava um dia de calor abrasador e, de um momento para o outro, ficou uma tempestade”. Ao passar junto à antiga Farmácia da Ponte, decidiu parar e procurar abrigo.
Na Feira de Artesanato, que estava nos preparativos para a abertura, o cenário foi igualmente assustador. Sílvia Alves recorda aqueles momentos como algo “surreal” e “assustador”. Miguel Rodrigues conta que o pai participava nessa primeira edição com uma mostra de instrumentos musicais que construía e que sofreu “um prejuízo enorme”.
Para quem estava no centro da cidade, não houve muito tempo para reagir. Maria Helena Silva recorda que se encontrava na feira semanal e que, ao dirigir-se para a zona do artesanato, acabou por procurar abrigo no Pingo Doce. “Começou a encharcar também”, relata.
Outros testemunhos revelam a dimensão do perigo. Manuela Gil estava numa paragem de autocarro com a irmã e o afilhado de apenas três meses, e descreve a sensação de que “ia tudo pelos ares”. Já Mariana Magalhães conta ter visto um andaime de uma obra “quase a cair com trabalhadores em cima”.
Também houve quem enfrentasse a tempestade dentro de espaços comerciais. Gracinda Lopes recorda que estava no E.Leclerc quando foi dada indicação para que todas as pessoas saíssem. “Lá dentro deixámos os carrinhos com as compras e fugimos”, relata.
A violência do granizo provocou estragos em casas e automóveis. Jorge Carvalho recorda ter ficado com os estores de casa “todos furados”, enquanto Dina Gonçalves conta que dois carros da família ficaram submersos na garagem, na Alameda Luís Barroso. “Foi um autêntico pandemónio, assustador”, descreve.
Na cidade, várias árvores de grande porte tombaram, entre outros locais no Parque 1.º de Maio e junto à Fundação Cupertino de Miranda, atingindo automóveis estacionados. A circulação ferroviária na Linha do Minho também esteve interrompida durante cerca de duas horas, depois de o teto da estação ter sofrido danos e de árvores caídas bloquearem a via.
Ricardo Ferreira estava no Parque Sagres, no campo de futebol, e lembra-se de uma tarde em que o tempo já parecia estranho: “Um calor e vento muito quente e tudo negro. Até que do nada começou a cair pedraça”.
Ao longo das horas seguintes, bombeiros e elementos da proteção civil responderam a inúmeros pedidos de ajuda. Entre a cidade e as freguesias vizinhas, os estragos foram muitos.
Vinte e sete anos depois, as recordações permanecem. “Parece que foi ontem”, é uma das ideias que mais se repete entre os testemunhos deixados pelos famalicenses. Para muitos, aquela tarde de 1 de setembro de 1999 continua associada ao medo, à surpresa e a imagens que o tempo não conseguiu apagar.


